quinta-feira, junho 14, 2007

A mania da grandeza

Há poucos dias ouvi alguém comparar o futebol com a religião. Dizia o entrevistado, na rádio, que antigamente a grandeza dos países era vista no tamanho das catedrais que construiam e que hoje se vê a grandeza dos países pelo tamanho dos estádios que constroem.

Recordo-me de um actor português (já desaparecido) que costumava afirmar ser o benfica a sua religião e o estádio da luz uma catedral.

O escritor francês Victor Hugo criou no seu livro "Os Miseráveis" a figura de um bispo, de baixa estatura, que vai para um lugarejo assumir funções, montado num jumento. As pessoas importantes, que esperavam o bispo e pretendiam recebe-lo com pompa e circunstância, contavam que ele chegasse numa sumptuosa carruagem e, ao vê-lo a descer do jumento não puderam esconder a indignação. O bispo não se deixou desarmar e diz: "Vejo que estão indignados por eu ter tido o orgulho de usar o mesmo tipo de transporte que o salvador Jesus".
Já instalado na casa que o deveria acolher o bispo ouvia, incomodado, a criada chamar-lhe de "alteza". Como era de baixa estatura um dia pediu à criada que lhe chegasse determinado objecto de uma prateleira porque "a sua alteza não dava para lhe chegar".
É claro que, quer no futebol quer na religião, vemos a mania de grandeza que, regra geral, habita em cada ser humano.

Jesus, o homem perfeito, estava despojado dessa mania de grandeza. Lembramo-nos como nasceu, como viveu e morreu. Um dia disse mesmo que, ao contrário das raposas e das aves, ele não tinha onde reclinar a cabeça.
Tudo o que usava era emprestado, os barcos, o jumento, a sala para celebrar a Páscoa, o sepulcro onde o seu santo corpo esteve durante pouco tempo; tudo emprestado. Era, por direito próprio, dono de tudo; mas viveu sempre como se nada fosse dele.
Ao proceder assim Jesus revelou a verdadeira grandeza, a que vem do interior.
Convem lembrar que foi o próprio Mestre quem nos aconselhou: "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração..."