sexta-feira, julho 31, 2009

O António transmontano

Chamava-se António e era de Trás-os-Montes. Um dia, convidado por um primo, apareceu na Rua dos Caldeireiros (na antiga Casa Artur de Queirós) e, juntamente com o primo e comigo, passou lá a trabalhar. Robusto, trabalhava sem cansar e guardava todas as gorjetas que recebia, recusando-se a gastar um tostão que fosse. Por vezes ainda o procurávamos tentar, comprando “caladinhos” (uns cones cheios de creme salpicados de canela) que umas velhinhas (por entre moscas e poeira) iam vendendo nas imediações da Torre dos Clérigos e na Praça dos Leões e que custavam uma coroa (cinco tostões), mas o António, embora ficando com água na boca, resistia sempre. Um dia convenci-o a ir comigo ao Palácio de Cristal (onde na altura funcionava a feira popular). Com relutância, e avisando-me que não ia gastar dinheiro, lá foi. Quando entrou (depois de eu ter pago dois escudos pelas entradas) o rapaz ficou encantado. Ele nunca tinha visto semelhante coisa, sobretudo os divertimentos e, como eu tivesse algum dinheiro a fazer-me “coceira nos bolsos” convidei-o a andar comigo nos aviões. Foi um investimento…Quando o rapaz se apanhou lá dentro e experimentou a sensação de voar (ainda que preso ao chão) ficou eufórico. Como andava sempre com o dinheiro no bolso, a partir dali, foi um tal gastar. Inútil era eu lembrar-lhe que já tínhamos andado muitas vezes porque, invariavelmente, ele respondia; “daqui não saímos” e ia dando uivos de alegria. Escusado será dizer que quando o dinheiro se acabou (o meu deu apenas para a entrada na feira, para um gelado e para uma volta nos aviões) lá fomos de novo para a Rua dos Caldeireiros, leves dos bolsos mas felizes. Depois daquela experiência o António deixou de ser poupado e, confesso o meu pecadilho, fui eu que lhe ensinou a ser esbanjador.