segunda-feira, janeiro 29, 2007

Vida difícil?


Hoje, quando saía da rádio, ouvi uma conversa entre um arrumador, bem conhecido naquela zona, e um automobilista que acabava de estacionar o seu veículo: "Então amigo, não há uma moedinha?" O homem, com cara de poucos amigos, disse: "Moedinha porquê, este terreno é seu?
O arrumador não desarmou: "Ande lá amigo, preciso de arranjar dinheiro para o meu almoço". Ao que o automobilista respondeu: "E que tal ir trabalhar?". Com grande lata o arrrumador rematou: "Ninguém me dá trabalho. Isto é uma vida difícil...".
Vida difícil? Esta gente não sabe do que está a falar. Eu ainda sou do tempo em que com apenas 11 anos já se trabalhava. Aos 12 anos andava já com caixotes à cabeça, e bem pesados. Um dia o caixote pesava tanto que tive de me encostar a um muro; a ideia era elevar o caixote e colocá-lo em cima do muro para descansar um pouco. O problema é que não tinha força para o elevar até ao cimo e também não tinha força para o colocar no chão. Sabendo que se o deixasse cair partia os dois garrafões de vinho que transportava, além de outros produtos, (e se assim fosse uma tareia me estava reservada) fiquei ali encostado a choramingar, até que uma senhora que por ali passava me veio ajudar.
Mas, acham que isto era uma vida difícil?
O meu pai, (que faleceu com apenas 56 anos vitimado pelo pó das minas) após vários dias em busca, infrutífera, de trabalho como mineiro, regressava a casa cansado, faminto e cheio de frio.
Já perto de casa ouviu os meus irmãos a pedir comida à minha mãe. Ela, que não tinha que lhes dar de comer, tentava brincar com eles e contar-lhes histórias.
O meu pai, cansado, faminto e cheio de frio, não teve coragem de entrar em casa, optando por voltar para trás em busca de trabalho.
Vida difícil, dizem eles. Não sabem do que estão a falar.