sábado, junho 06, 2009

D. Anita

Tinha eu 12/13 anos e trabalhava (é verdade já trabalhava, comecei aos 11) na R. Carlos Malheiro Dias (parte nova da Constituição) no Porto. Como marçano que era visitava (para saber o que queriam para aquele dia) várias clientes. Era um ritual que se mantinha de Segunda a Sexta-Feira. De bloco de apontamentos na mão ia, de manhã bem cedo, às casas das clientes e apontava o que elas me pediam (tendo eu a responsabilidade de lhes ir lembrando alguns produtos de primeira necessidade) depois havia que encher o caixote, que eu transportava à cabeça, e lá ia eu de novo abastecer as clientes as quais, regra geral, pagavam no fim do mês.
Uma dessas clientes morava, num prédio de 4 andares, mesmo em frente à mercearia onde eu trabalhava e, apesar disso, a Dona Anita (assim se chamava a cliente) fazia questão de ser tratada como as que moravam mais longe.
A D. Anita era, de alguma forma, uma cliente especial. Ela tinha televisão e muitos gatos e cães. Além disso a criançada das redondezas (eu incluído) tinha entrada franca naquela habitação. Lá nos reuníamos para ver o rin-tin-tin, o mascarilha e outras séries juvenis. A D. Anita a todos recebia com um sorriso e as nossas tropelias pareciam não a incomodar nunca.
Eu, e certamente os outros miúdos, achávamos a D. Anita perfeita e não nos incomodava sequer o boato de que a senhora fosse bruxa (era o que diziam algumas vizinhas) ou que fosse olhada com desconfiança pelas outras donas de casa lá do prédio.
A D. Anita, já o disse, era cliente da mercearia onde eu trabalhava e sempre que não pagava de imediato (isso acontecia às vezes) a dívida ficava “no espeto”, um objecto existente no estabelecimento onde se colocava a lista dos produtos e dos clientes em débito sem que fosse necessário fazer factura. Aqueles papéis estavam no estabelecimento e nunca eram retirados “do espeto” a menos que a cliente pagasse.
Um dia a D. Anita pediu-me que lhe levasse o papel onde figuravam as suas dívidas. Embora tenha achado estranho o pedido de que o fizesse sem dar conhecimento aos meus patrões, a minha confiança na D. Anita era tal que não hesitei em fazê-lo. Levei-lhe o papel e ela, guardando-o, disse-me que depois pagaria, mas nunca mais o fez.
Os meus patrões, dando fé da falta do papel, perguntaram-me por ele e eu não tive outro remédio senão contar a verdade. Então eles disseram-me para pedir o dinheiro mas a senhora disse-me que nada devia. Quando lhe recordei a história do papel ela mostrou-se surpreendida e disse desconhecer tal situação. De resto afirmou nada dever e pediu-me que lhe apresentasse uma prova de dívida. Ameaçou ainda os meus patrões, através de mim, de que lhes poderia “fazer mal” caso eles insistissem na cobrança de tal dívida.
Apesar da minha tenra idade compreendi que tinha sido burlado por aquela senhora que eu considerava tão boa passando, a partir daí, também eu a admitir que ela pudesse ser mesmo bruxa. Foi uma decepção.
Apesar dos convites dos outros miúdos, por minha iniciativa, decidi nunca mais voltar lá a casa. A mercearia onde eu trabalhava nunca mais forneceu a D. Anita que continuou a sorrir para todas as crianças, inclusive para mim sempre que me via.
Cedo aprendi que nem todas as pessoas, mesmo as que nos parecem simpáticas, são de confiança.