sexta-feira, dezembro 22, 2006

Aconteceu num dos meus natais...


Teria eu cerca de 8, 9 anos quando experimentei um grande "amargo de boca" na véspera de Natal. Os meus irmãos, todos a trabalhar no Porto e Matosinhos, tinham garantido aos meus pais que iriam, nesse ano, passar o Natal lá na aldeia. Com base nisso, é claro, tinhamos feito os preparativos possíveis. A minha mãe caprichou ainda mais nas limpezas, o meu pai comprou, com grande dificuldade, um bacalhau menos delgado, a minha mãe multiplicou as rabanadas e os pratos de aletria e eu, com o apoio do meu sobrinho, tratamos de fazer novas figuras, com o barro apanhado por nós no local próprio, para o presépio, figuras que depois de cozidas na lareira foram pintadas com a tinta obtida das azeitonas.
Tudo estava preparado e eu já antevia a chegada do autocarro da Auto Mondinense, o que deveria acontecer lá para o final da tarde.
De repente, com cara de caso, apareceu a filha do Regedor da aldeia (era lá que o correio era entregue) com uma carta, escrita por um dos meus irmãos.
Naquela pequena aldeia tudo se sabia; todos estavam a par do facto que os meus irmãos viriam passar o Natal e, por isso, aquela jovem antevia que aquela carta pudesse trazer más notícias.
Assim era.
Uma vez aberta a carta foi fácil descobrir que já tinha sido escrita havia vários dias só que, naquela altura, os correios não eram muito velozes.
Na carta os meus irmãos informavam que tinham decidido não vir passar o Natal, uma vez que nem todos estavam dispensados dos seus empregos, prometendo que viriam aquando da festa religiosa mais importante da aldeia, a 15 de Agosto.
A tristeza, pode dizer-se, abateu-se sobre toda a aldeia mas, óbviamente, sobre os meus pais, eu e o meu sobrinho.
Que me lembre, apenas vi o meu pai chorar duas vezes; e esta foi a primeira.